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Nerds e seus problemas com finais polêmicos

10/04/2012

Ontem finalmente terminei Mass Effect 3, semanas depois de todas as pessoas cuja opinião importa já terem emitido sua opinião sobre o polêmico final do jogo. Tenho alguns comentários a tecer sobre o assunto, nada muito detalhado, extenso ou particularmente significativo, mas que, como vai na contramão da maioria das opiniões, achei que valia a pena escrever.

Sim, eu gostei do final, e da grande maioria das suas variações.

No final que joguei, escolhi controlar os Reapers, o que resultou na morte do Shepard e subseqüente destruição da Cidadela e mass relays, mas já vi os outros finais, e as variações são pequenas. O ponto essencial é: Shepard morre, grande contingente de outras raças fica para sempre separado de seus planetas natais e no fim, o jogador acaba não tendo tanta voz assim no final da saga.

Depois que fechei o jogo, gastei algum tempo lendo (ou vendo, ou ouvindo) artigos que não tinha lido por medo de spoilers. O final foi profundamente satisfatório para mim, então eu realmente queria entender o motivo do mimimi. As críticas giram em torno da morte do Shepard, do destino da tripulação da Normandy, da destruição dos mass relays e de outras coisas sem nenhuma importância (esse cara fez um bom resumo dos problemas que a maiorias das pessoas acusaram).  O único artigo que eu realmente entendo (embora ache exagerada por motivos que vou explicar a seguir), é a crítica do Luke Plunkett, do Kotaku.

Muitas pessoas ficaram ofendidas pela fato de não podermos efetivamente escolher um final. Afinal, o jogo é baseado na idéia que o jogador é que define a história, certo? Errado. Um dos grandes méritos da saga é fazer parecer que você a controla. Já mestrei e joguei aventuras de RPG o suficiente para saber isso: o jogador tem um controle muito limitado da história, que quase sempre já foi definida pelo mestre, no caso, a Bioware. Embora no RPG de mesa haja certa adaptabilidade, o mesmo não vale para jogos eletrônicos. O final já estava definido desde sempre. É claro que também já joguei livros-jogo o suficiente para saber que pode haver mais de um final, e poderia também em Mass Effect, mas a meta dos criadores dessa história era mais ousada.

A saga de Mass Effect, em boa medida, representa um ciclo de vida. Esse não é só o tema central, mas uma importante escolha narrativa. Avaliando a série como um todo, percebe-se que o foco não é o final, mas a jornada. Na vida, temos grande controle: escolhemos o que diremos e faremos, e a forma como diremos e faremos. Mas o resultado final, sempre (ou quase), está inteiramente fora do nosso controle. Há forças infinitamente mais poderosas que a vontade (chame de Deus, mãe natureza ou mecânica quântica, como preferir), e elas têm impacto muito maior no resultado da coisa. De fato, somos observadores. Reagimos muito mais que agimos. Talvez por isso mesmo o final de Mass Effect 3 seja tão incômodo – naquela que talvez seja a mais audaciosa iniciativa da história do vídeo-game, muitos gostariam de poder escolher se a galáxia vai acabar ou se teremos dezenas de pequenos smurfs com a Drª. T’Soni. Notícia importante: escolhemos muito, controlamos nada. Lembro da minha frustração ao final do 1984, do George Orwell. Definitivamente não era o final que eu esperava, mas era o final mais plausível – era (parecia) real.

Pode ser que meu comentário seja uma besteira, e que teorias que Shepard sonhou o final, ou que ele na verdade estava indoctrinated e outras coisas do gênero sejam as reais intenções da Bioware, e que DLC do fim do ano venha para corrigir o “problema”. Mas para mim, deveria ficar como está.

O herói morre, mas a história vive para sempre.

E você, o quê achou do final?

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10 Comentários leave one →
  1. 10/04/2012 16:14

    Sim, sim! É isso mesmo!

    Eu achei o final muito bom, ainda que reconheça que algumas coisas poderiam ter sido pensadas e realizadas com mais calma. Por exemplo, eu gostaria que Shepard tivesse mais opções de diálogo com o Catalyst, em vez de aparentemente aceitar de forma passiva o que é dito; gostaria de saber como ficaram os sobreviventes depois da destruição/ dano aos mass relays; gostaria de saber por que o Joker está fugindo. Mas o final em si? Seems legit.

    Já disse em outros lugares e vou repetir aqui: toda a história e o M.O. dos Reapers foi sendo revelada ao longo dos três jogos. Para mim estava claro, claríssimo desde ME1 que os Mass Relays eram como grandes ratoeiras cósmicas. A destruição deles pode até significar um problema para o Conselho, mas não é a) incontornável; b) o começo de uma nova era de trevas para a galáxia. Os Reapers viviam repetindo que graças aos Mass Relays as civilizações avançadas se desenvolviam pelos caminhos que ELES escolheram.

    Enfim, eu passei o jogo inteiro querendo destruir os desgraçados. Fraquejei na última hora quando, depois de passar tanto tempo unindo Quarians e Geths e ensinando a EDI o que significa ter consciência e vontade própria, descobri que destruir os Reapers acarretaria na destruição dos outros sintéticos também. A única coisa realmente dolorosa no final da Síntese é que não sei quanto tempo a Tali vai levar para voltar para Rannoch…

    E quanto aos mimizentos… bem. Alguns articularam bem por que não gostaram do final. Outros são crianças mimadas. E só.

    • Eduardo Derbli permalink*
      10/04/2012 16:47

      Enquanto escrevia, Daniel, achei mesmo que você fosse concordar ao menos com parte do que escrevi. 😀

      Sua posição em relação aos relays é a minha: sua destruição não significa o fim das viagens. Eles ainda têm os mass effect fields e tal, dá pra montar de novo mas sem o julgo dos Reapers. A parada que você falou da Tali foi o mesmo que eu senti: o que vai acontecer com todas essas pessoas? Isso só reforça o mérito da saga como um todo – empatia.

      Uma das colunas mais estúpidas que li (em um site muito bem conceituado) continha a seguinte frase: A “life sucks” conclusion can work, but you probably don’t need a long story to tell that tale. Então é isso? Vamos nos limitar a contar história felizes? Imagino que devam ter dito algo da mesma natureza quando surgiram os primeiros livros com esse tipo de temática.

    • 10/04/2012 17:21

      É que mertiolate não arde mais. Sério. Só isso explica a quantidade de gente* que ficou chorando porque o final não é todo explicadinho, nem hollywoodiano com todo mundo feliz de mãos dadas.

      * – tá, então teve gente que conseguiu articular melhor o por quê de não terem gostado do final. Ainda discordo deles, mas ao menos esses não são crianças mimadas.

      • Eduardo Derbli permalink*
        11/04/2012 09:30

        “É que mertiolate não arde mais” = FRASE DO ANO.

      • 11/04/2012 11:43

        Haha, eu gostaria de ter inventado esta, mas é velha 🙂

  2. ivan permalink
    10/04/2012 18:40

    Er, nada a ver com a discussão sobre o jogo:

    Mas, cara, li 1984 com uns 18, 19 anos… E fiquei maravilhado justamente com o final!… Te agarra pelo estômago sim, mas juro que fiquei emocionado, nem acho ele realista, mas um paroxismo, uma catarse, uma epifania…
    Fiquei estragado. Watchmen chegou bem perto.
    Será que tenho problemas?…

    • Eduardo Derbli permalink*
      11/04/2012 09:29

      O final do Mass Effect lembra um pouco o de Watchmen, mas acho que 1984 tem um final mais cruel.

      Sim, você tem problemas, mas não por isso! ;-D

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