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A voz da sabedoria: O Cavaleiro das Trevas Ressurge [Spoiler Free]

25/07/2012

Elegância, zelo e bom gosto.

Existe verdadeiro fascínio por tríades, tríticos e todo tipo de referência ao número três em diversas culturas humanas. Acreditemos ou não, no cinema esta referência ao “3” aparece com frequência também. Trilogias são bastante comuns. O que não são usuais são trilogias fílmicas que se justifiquem como tal. Salvo exceções antológicas de tão clássicas – Star Wars (advinha qual trilogia?), O Poderoso Chefão, O Senhor dos Anéis (em breve, O Hobbit?) e De volta para o Futuro –, o novo furor por trilogias em Hollywood quase sempre envolve nossos queridos personagens de HQ’s, nem sempre honrando nossas expectativas.

E é aqui que a resenha começa efetivamente.* Isso porque Christopher Nolan conseguiu inscrever seu nome nessa tradição (o que é difícil!) com honra, louvor, mérito e distinção. Em tempos de trilogias menos do que palatáveis e reboots injustificáveis, ele e seu irmão, que também merece crédito como roteirista, conseguiram encerrar uma trilogia excepcional com O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Se me perguntarem, digo logo: os três filmes são, na realidade, uma história apenas. Para mim, não existe comparação entre o começo, o meio e o fim da mesma história: mérito de uma grande trilogia. Bravo! Mr. Nolan, bravo!

As referências a todo o universo do Homem-Morcego são inúmeras. Desde HQ’s clássicas até a série de tevê da década de 1960, com Adam West. Algumas delas são bem sutis. Claro que posso ser só eu. E isso se deve ao estilo “nolaniano”: que é o “innuendo”. Seus filmes deixam muitos aspectos e referências à trama, ou mesmo fora dela, para a apreensão subjetiva dos seus espectadores, como em filmes como Amnésia e A Origem. Mas, dessa vez, ele cedeu um pouquinho aqui e ali. Não perdeu sua identidade, mas acredito que ele tenha feito “agrados” como quem oferece um presente (de despedida) aos fãs. Ao longo, especialmente no final, de O Cavaleiro das Trevas Ressurge isso ficará mais do que evidente.

Interpretações: Christian Bale, como sempre, é o Batman/Bruce Wayne. Michael Caine é o Alfred. Gary Oldman é o Comissário Gordon. Anne Hathaway está espetacular! Ela desenvolveu uma “mulher-gato” perfeitamente  cabível na Gotham City de Nolan. As aspas se justificam, pois ela não é chamada, tampouco se autointitula, Cat Woman em momento algum do filme, salvo amnésia de minha parte. Menções à cat (“gatuna”) são feitas, mas em segundo plano. Para mim, isso só reforça a visão de Nolan para um Batman que surgiu para ser um símbolo, para inspirar outros. Por essa razão, um nome, uma roupa, um logotipo, enfim, uma mensagem. A personagem de Hathaway, não quer nada disso. Sua roupa é funcional, nada espalhafatosa, pois ela não quer ser notada, mas ser discreta, afinal é uma ladra. E que ladra! Tom Hardy também brilhou. Seu Bane, novamente, é um vilão do universo Nolan. Seu porte físico é perfeitamente cabível para o tanto de agilidade que o seu personagem exigia. Nada de mágico, suprahumano ou fantástico: é algo bem factível de encontrarmos por aí num octógono. Sua voz causará algum desconforto de início, assim como a de Christian Bale em outros momentos da trilogia, mas isso passa. No geral, o cara se supera. Outro ponto alto do filme é a atuação de Joseph Gordon-Levitt. O cara mandou muito bem.

O filme, é claro, tem um ou dois problemas se quisermos ser chatos. Mas não existe filme perfeito. As surpresas do filme não são, na realidade, grandes surpresas. Qualquer nerd mata as charadas da trama ao longo do filme, mas o objetivo ali não era esse. O objetivo era fechar uma história, amarrar a trama iniciada em Batman Begins e desenvolvida em The Dark Knight. O que ele fez magistralmente. Além disso, Nolan fez tudo do jeito dele. Isso é muita moral, especialmente nos dias de hoje. É claro que ele conquistou essa moral com seu trabalho, não só pela competência e talento, mas revertendo tudo isso em cifras mais do que encorajadoras para qualquer engravatado de Hollywood. Por se manter íntegro à sua visão e interpretação daquele universo, e por outras também, como tantas vezes repetimos aqui pelo Blog, in Nolan we trusted! E ele não desapontou.

Para mim, grande parte do sucesso do Batman como personagem reside na capacidade de reinterpretação do mesmo, de sua história, do seu universo, vilões etc., sem romper com a longa cadeia da qual se faz parte, escrevendo de dentro dela. As grandes histórias do Homem-Morcego conseguiram imprimir sua marca nessa tradição. Algumas de modo indelével. Não à toa a expectativa em torno da inclusão desses elementos na versão de cinema do Nolan era enorme. Novamente, ele não desapontou. Sem fazer adaptações literais, o que enfraqueceria seu trabalho, ele se apropriou livremente desses elementos de maneira a empregá-los da melhor forma possível no desenvolvimento da sua história do Batman. Trata-se da sua própria interpretação dessa personagem que, certamente, acrescentou algo à tradição do mesmo e já imprimiu suas marcas sobre as páginas das HQ’s. Só o tempo dirá se tais marcas serão duradouras, mas o simples fato de ele ter conseguido inverter a ordem dos fatores (cinema influenciando HQ’s) já é digna de nosso entusiasmado aplauso. Além disso, os filmes são excelentes.

E como ele conseguiu isso? Elegância, zelo e bom gosto. É assim que eu sumarizo sua contribuição com essa trilogia, não apenas para o universo de Batman, mas para a própria tradição das trilogias no cinema. Competências mil, bons atores, bons roteiros, referências clássicas, tiradas de humor em meio ao clima sombrio e realista da sua Gotham City podem ser ingredientes fundamentais da receita desse sucesso. Mas sem boa dose de zelo e bom gosto na combinação, qualquer receita pode dar errado, independentemente de suas partes. Além disso, o caldo poderia até entornar antes de servido, diante das pressões de marketing, mortes, assassinatos e tantas outras coisas que cercaram esses aguardados lançamentos. Elegância no arranjo e na apresentação também contribuiu (e muito!) para desfrutarmos dessa maravilha que “Mr. Nolan” e companhia prepararam. Resta aguardar o lançamento da trilogia em DVD/Blu-Ray. Por ora, só me resta bradar, novamente, “Bravo!” e, é claro, Nolan prevails!

*Agradeço ao amigo Kimon Speciale pelo convite para assistir à pré-estréia de Batman: o cavaleiro das trevas ressurge com ele ontem, 24/07/2012, no Leblon.

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